Se não fosse pelo tédio, os dois dormiriam juntos. Transariam até o amanhecer e jogariam cartas quando a noite começasse. Ele ofereceria vinho a ela e ela diria que estava ficando bêbada, os dois ririam olhando as estrelas em terceira dimensão. Alice sentiria finalmente o cheiro de Pedro, contaria para ele todos os seus segredos e sentiria seus dedos e línguas quererem mais que a primavera.
Se não fosse pela indescritível distância que o anoitecer provoca, Alice daria o beijo prometido num táxi qualquer, Pedro a seguraria pelos braços e a faria mulher dele. E ela seria mulher pela primeira vez. Acordaria sem chão e toda culpa seria devorada no café da manhã e uma corrida de cavalos só parada pelo vento. Pedro sorriria e gravaria o seu sorriso para colocar aqui. Alice choraria pensando se aquele dia não tivesse acontecido. Ela se arrependeria por tudo que esperaram.
Pedro a amaria pela primeira vez e lhe daria uma flor e diria “é você”. Ela ficaria sem graça. Os dois estariam cansados. Se não fosse o tédio as entrelinhas diriam mais, a entrega seria de corpo inteiro, não pela metade, não devagarzinho. Se não fosse pelo tédio, os dois acordariam juntos. Transariam até a hora do almoço e assistiriam filme deitados na sala de vídeo. Tudo que não fossem eles estaria no lado de fora e a partir daquele segundo, Pedro seria dela e não teria abandonado a história. Pedro não acredita mais em contos-de-fada.

0 Respostas para “.”